Trabalhar em rede: é possível?

“Vivemos uma sociedade em rede” é uma frase já antiga que nos diz sobre algo lógico, porém ainda dificilmente aplicado no modo como criamos organizações, projetos e relações. Observando as interações em sociedade, 99% das organizações seguem o padrão descentralizado, e não o padrão distribuído que espera-se de uma rede. Isso significa que há vários pequenos centros de poder que se comunicam entre si, mas ainda temos poucas organizações em que todos os pontos estão ligados a todos os demais.

Microtendências já revelam movimentos por organizações horizontais, compartilhamento de recursos, cocriação de projetos e colaboração em rede. Mas, até que ponto esses movimentos refletem-se em organizações, relações e projetos concretos?

Trabalhar em rede: é possível?

Mais que uma tendência, esses novos movimentos apontam para novos modos de criar economia e se organizar em sociedade. Mas, para criar qualquer projeto que efetivamente funcione em rede é preciso mais do que tentar abolir as hierarquias dominadoras. É necessário mudar as lentes e combinar elementos da velha e da nova economia para darmos conta desse momento de “história entre histórias” que nos encontramos. Afinal, como afirma o filósofo Ken Wilber, evoluir é incluir o antigo e transcender, e não excluir e ignorar.  

Quais lentes orientam a nossa economia?

A economia tradicional parte da escassez. Ela é criada para regular a escassez de recursos, e o próprio sistema financeiro é feito sob dívida, o que reforça a verdade universal de que não é possível prover para todos. Seguindo essa lógica, nos organizamos em torno de hierarquias que devem exercer controle garantindo assim a nossa eficiência. E sendo eficientes, somos capazes de ganhar vantagem competitiva para acessar os recursos que são escassos.

Partindo dessa lógica, buscamos tanto controlar os resultados, que acabamos cortando conexões, fluidez e eficácia. Organizações descentralizadas possuem vários centros de controle, e por isso os agentes não agem, nem interagem de forma livre, o que garante que façam rápido mas não necessariamente que sejam capazes de inovar e fazer bem feito.

E o que isso tem a ver com a criação e gestão de redes? Tudo. Como vemos o mundo com as lentes da economia tradicional, é muito difícil abrir mão do controle, ser e permitir que os outros sejam autogestores, abandonar a ideia de escassez e combinar a lógica descentralizada e distribuída no modo como nos organizamos.  

Trabalhar em rede: é possível?

Uma economia mais colaborativa parte da lógica de abundância, e com a lógica de que tem para todo mundo é possível criar processos de colaboração.  Partindo desse novo olhar econômico, fica mais fácil se organizar de maneira distribuída, e no lugar dos agentes serem controladores, eles passariam a agir como conectores capazes de ativar e distribuir os recursos.

Mas, os novos modelos em rede ainda não tem funcionado tão bem assim. Por exemplo, empresas que trabalham com freelancers muitas vezes tem dificuldade em gerar engajamento. Empresas livres tem dificuldade de equalizar o trabalho e dividir o dinheiro de forma justa. E para citar alguns exemplos pessoais, na minha vida percebo claramente vários entraves: dificuldade de encontrar pessoas e organizações dispostas a ampliar o olhar sob recursos para além do financeiro, os obstáculos para criar relações complementares e de ganha-ganha em que um está disposto a abrir suas abundâncias para o outro, a não fluidez das relações estabelecidas, a dificuldade de abrir mão do controle e confiar que cada um irá contribuir com o melhor de si de modo justo para todos e principalmente a difícil materialização de projetos e parcerias colaborativas.

Trabalhar em rede: é possível?

Hierarquia dominadora ou natural?

Para não correr o risco de cair no vale da idealização e efetivamente concretizarmos projetos em rede, percebi a importância de olhar mais de perto para o conceito de hierarquia e o que rejeitamos quando excluímos o termo. Para o pensador Ken Wilber, a palavra hierarquia adquiriu uma conotação negativa porque as pessoas confundem hierarquias dominadoras com hierarquias naturais, que podem ser chamadas também de holarquias.

A natureza é feita de hierarquias, e todos os processos de crescimento e colaboração também se dão assim. Se entendemos o mundo a partir da lente holística que “o todo é maior que a soma das partes” naturalmente estamos falando que o todo está em um nível de organização maior e mais profundo que as partes isoladas, e isso nada mais é que uma hierarquia natural (ou holarquia).

“O princípio básico do holismo é a holarquia: a dimensão maior ou mais profunda estabelece um princípio, ou uma cola, ou modelo, que une e liga, em vez de separar, confrontar e isolar as partes numa unidade coerente” Ken Wilber

Ao negar a hierarquia viramos amontoadores, e por isso em muitas tentativas de criar organizações em rede totalmente horizontais ou orgânicas falham. Nos esquecemos que é preciso de algum tipo de ordem e assim reduzimos o desempenho, eliminamos o holismo e a consequente capacidade de colaboração e abundância.

Ainda utilizando as ideias propostas por Ken Wilber, o pensador propõe que todo e qualquer organismo vivo só mantém sua existência quando combina ação e comunidade, ou seja, quando é capaz de manter a sua totalidade ao mesmo tempo que se ajusta como parte desse sistema maior.

Isso significa que para criar em rede é importante:

  • respeitar a existência das holarquias e as ordens que advém a ela
  • possibilitar que os indivíduos expressem sua totalidade
  • criar um senso comum de que há algo mais profundo que os indivíduos em si.

Trabalhar em rede: é possível?

Mas, como então criar organizações e projetos em rede?

  • Para que os indivíduos de determinada rede expressem sua totalidade e ao mesmo tempo compartilhem desse senso que fazem parte de algo maior que as necessidades individuais de cada um, entendi através da minha própria experiência que é necessário dentre outras coisas um sonho comum. O Dragon Dreaming, metodologia para realização de projetos criativos, propõe que o sonho pode ser visto como uma experiência coletiva e objetiva. Para que a inteligência coletiva seja liberada e estabeleça-se um trabalho em rede é preciso deixar o sonho individual morrer para renascer como sonho do grupo. Isso vale para unir uma rede em torno de um projeto específico, mas também é válido para que diferentes projetos colaborem entre si.
  • Um outro aprendizado importante é que todas essas práticas de criação e gestão em rede não são naturais para nós que ainda vemos o mundo através das lentes da economia tradicional. Por isso, salvo exceções, quando tentamos deixar fluir de modo orgânico, é mais provável que as relações morram, a colaboração não aconteça, a rede não se retroalimente e muito tempo seja perdido em relações que não geram retorno real. É preciso ver e sentir-se visto, é preciso pertencer, é preciso saber falar. Isso significa que novas competências precisam ser adquiridas, principalmente em termos de comunicação e cocriação, o que implica novas formas de linguagem e novas posturas internas.
  • Como criar e gerir redes de trabalho não é mais tão orgânico como na natureza, é possível também usar ferramentas e métodos para isso. Com essa percepção, nós do Movimento Ímpar, criamos internamente um framework básico para gestão de rede. (disponível em sua versão beta nesse link)

Uma nova economia está nascendo, e com ela possibilidades de colaboração e abundância se tornam sim cada vez mais possíveis. Afinal, criar projetos em rede, estabelecer novos tipos de relações humanas, atingir estados de fluxo criativo em grupos, potencializar a cocriação, colaborar e gerar abundância nada mais é que espelhar a natureza. Uma natureza que ficou adormecida em nós, mas não por muito tempo. É o que eu espero.

Bônus:

Conversamos com o Max Nolan sobre o tema, confira:

Referências

Circular Design Guide

TedX Empreendedorismo e Despreendimento

Curso Economia Colaborativa Descola – Camila Haddad

O que aconteceu com a Baobba, Empresa Livre? – Gustavo Tanaka 

Bridgy – Cláudio Carneiro

Pedagogia da cooperação

Ken Wilber – Uma Breve História do Universo

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