E se dinheiro não fosse problema?

Observe o que muitos de nós fazemos no dia a dia. Colocamos o despertador para nos acordar bem cedo, mesmo quando nosso corpo pede por mais horas de sono, porque precisamos trabalhar. Passamos 1h30min no trânsito ao longo do dia, e com isso nos resta pouco tempo para passar com as pessoas que realmente importam para nós. Trabalhamos longas horas fazendo coisas que detestamos, para empresas que não servem ao crescimento do planeta, e assim nos satisfazemos em dedicar uma porcentagem do lucro para ajudar alguém e nos sentirmos menos culpados. Chegamos no final de semana exaustos, e por isso optamos por gastar uma alta quantia de dinheiro com festas, bebidas, restaurantes e consumo de maneira geral, para compensar nossa desconexão com o que nos faz feliz.

Eu poderia dar vários outros exemplos de como o nosso atual estilo de vida nos distancia da possibilidade de satisfazermos verdadeiramente nossas necessidades. Mas só neste parágrafo, podemos ver como nossas ações nos dificultam a satisfazer necessidades básicas como subsistência, afeto, criação, liberdade e lazer. É como sentir muita sede e tomar um copo de refrigerante esquecendo-se que a quantidade de açúcar contida ali vai na verdade nos deixar com ainda mais sede que antes.

Empreendendo há quase um ano oficialmente, comecei a notar um incômodo crescente em mim. O motivo pelo qual eu resolvi iniciar o Movimento Ímpar foi para ajudar a impulsionar a transição para um novo mundo, o mundo que eu acredito que podemos viver, e a mudança que vejo ser urgente. Em termos práticos, isso significa disseminar novas visões de mundo e conhecimentos que vão nos ajudar pessoalmente a vivenciar tamanha mudança e complexidade, e, acelerar a criação de novas ações, projetos e estruturas que transformem nossas cidades e nos ajudem a lidar localmente com os grandes desafios globais do século XXI.

Mas quem empreende sabe que expectativa e realidade nem sempre andam juntos. Para fazer o que eu quero era preciso criar uma marca, um discurso, um canal de marketing e vendas, um modelo de negócios sustentável, gerar visibilidade, bla,bla,bla. E com isso, nos últimos tempos comecei a contabilizar meu tempo e perceber que de tudo que eu faço hoje, apenas 5% realmente serve diretamente ao meu desejo de impulsionar a transição.

Foi aí que eu comecei a questionar se mesmo na criação de um negócio cheio de propósito, eu não estaria ainda assim replicando a mentalidade tradicional, de fazer coisas que eu não gosto e não servem a esse propósito. Talvez por medo de escassez, ou por viver em um mundo que ainda me exige tudo isso, eu continuo longe de satisfazer as reais necessidades que vejo em mim e no mundo. E eu comecei a me questionar: se dinheiro não fosse um problema e eu não tivesse que me preocupar com isso no meu negócio, o que eu faria?

Se eu vivesse em um mundo de abundância eu planejaria menos, e faria mais. Não gastaria tanto tempo com marketing, vendas, modelo de negócios, discurso perfeito. Colocaria meu serviço no mundo para quem quisesse se conectar. Na verdade, iria viver processos de transição e impactar pessoas na rua pelo menos uma vez por semana. Correria ainda mais riscos, confiaria no universo e que as pessoas certas sempre iriam aparecer para espalhar abundância também no meu mundo. Se dinheiro não fosse um problema, eu iria satisfazer minhas necessidades e contribuir bem mais com o mundo.

E como meu objetivo sempre foi desconstrução, foi o que eu resolvi testar. Coresponsabilização financeira, crowdfunding, gift economy, pague quanto quiser… Será que funciona? Será que a abundância que quero ver no mundo pode começar de mim?

Não tenho respostas. Na minha experiência pessoal, tenho visto que nem sempre é fácil, que toda horizontalidade exige uma certa verticalidade, que para saber receber é preciso ter coragem de pedir, que dinheiro ainda é a energia que gera comprometimento e valorização, que risco compartilhado tem a ver com uma vulnerabilidade e autoresponsabilidade que nem todos estão afim de topar.

Mas como para mim, dinheiro e matéria não deveriam mais ser os únicos motores que giram nossa sociedade, resolvi experimentar. Os resultados ficam para um próximo post. E você? O que faria se dinheiro não fosse o problema?

Jornada Ímpar —  Pague quanto quiser  

Todas essas reflexões nos levaram a eliminar do preço do nosso produto chefe, a Jornada de Liderança Criativa de Transição, nossa remuneração e o lucro da empresa. Experimentamos agora, cobrar o valor mínimo para viabilizar o processo, e compartilhamos com os participantes os valores ideais para remunerar nosso trabalho, os parceiros e a viabilidade financeira da empresa. Criamos assim, um modelo de “pague quanto quiser”, baseado em colaboração e abundância, para espalhar nosso propósito e garantir a continuidade do movimento com o pagamento consciente dos que se engajam conosco. 

Movimento Impar